AS BOLOTAS

Neste Outono na Via Natura sugerimos algumas receitas com bolotas um dos principais alimento dos povos ancestrais lusitanos e que apesar de ser um fruto que caiu em desuso com o passar dos séculos ainda é consumido em algumas regiões rurais portuguesas.

“O fruto da sobreira chama-se lande (popularmente landre, alandia) e daí se formou Landal, Landeiro, Landeira: as landes servem de alimentação aos porcos nos montados alentejanos; só em certos casos as comem as pessoas.

O fruto da azinheira, que é doce ou amargo, chama-se bolota ou boléta (Alentejo), e, se serve igualmente para os porcos, entra também, quando é doce, na alimentação da gente (comem boléta no Alentejo, do mesmo modo que nos terrenos de castanha os respectivos povos comem estas).

O fruto (do carvalho) destinado a engorda de porcos, chama-se (analogamente ao do sobreiro e da azinheira) lande ou landre, bolota ou boleta, conforme as localidades, (apresenta-se) inserido numa cúpula.”
José Leite de Vasconcelos: Etnografia portuguesa.

Actualmente as bolotas e desde há algumas décadas não são um produto que tenha um mercado que justifique a sua produção para usos culinários e são utilizadas na sua maioria para alimentar porcos e outros animais. Todavia a bolota já foi um dos alimentos principais na dieta de alguns povos como os Lusitanos. Os Lusitanos para contornarem a escassez de cereais no Inverno, Colhiam as bolotas no Outono, transformavam-nas em farinha para produzir pão. Esta farinha uma vez seca, pode ser conservada durante todo o Inverno.

“Na quarta parte do ano não se mantêm senão de bolotas, que secas e trituradas, se moem para fazer pão, o qual pode guardar-se por muito tempo” Estrabão

A bolota apesar de conter taninos o que lhe confere um gosto um pouco amargo, é um fruto que continua a ser consumido e apreciado por algumas pessoas da região do Alentejo, em especial do Baixo-Alentejo. Infelizmente o uso tradicional culinário da bolota tem-se vindo a perder com o passar dos anos e é quase impossível conseguir bolotas nos grandes centros urbanos mas, aqui ficam algumas receitas que não caíram no esquecimento e continuam a ser confeccionadas pelas gentes do sul de Portugal. Para quem nunca teve a oportunidade de consumir bolotas aconselhamos vivamente que o façam pois para além de serem uma parte importante da nossa cultura gastronómica é um alimento saboroso e óptimo com vários nutrientes, vitaminas e proteínas.

Bolotas Assadas

As Bolotas podem ser comidas cruas, mas é comum serem assadas nas brasas das lareiras. As bolotas doces podem ser consumidas cruas e assadas sem qualquer problema, contudo nas bolotas amargas devem-se neutralizar ou eliminar os taninos.

O consumo de bolotas assadas ou cozidas é ainda bastante comum nas populações rurais de Portugal.

Receita do Pão/Bolo de bolota

A Farinha:

Apanhar bolotas doces.
Tirar a casca e pôr de molho vários dias, mudando de água frequentemente.
Cozer longamente em água. Os taninos irão tingir a água de vermelho. Recomeçar até que água saia clara. Este passo é fundamental para que os pães não fiquem amargos nem indigestos.
Moer então as bolotas numa mó manual, à romana, (ou qualquer outro método mais moderno), até obter uma farinha.

O Pão:

Para fazer os bolos, seguir uma receita comum do pão (farinha de bolota, água, sal, fermento). Pode torná-la mais atractiva, tal como o fariam os lusitanos, incorporando mel, frutos secos ou um pouco de azeite, já à moda Romana.

(Fonte: Fórum Gastronomia)

*Pode-se adicionar farinha de milho ou de trigo para tornar o pão mais saboroso.

Sopa de Bolotas

Prepare uma sopa comum de feijão e batata mas substitua a batata por bolotas. As sopas em Portugal em tempos tiveram todas na sua base castanha e bolotas, mas depois dos descobrimentos e da introdução da batata em Portugal, esta substituiu as tradicionais castanhas e bolotas.

Queijinhos de bolota

Esta receita pertence ao livro de Soror Maria Leocádia Tavares de Sousa que professou no Convento da Conceição de Beja.

Ponha 500 g de açúcar em ponto de cabelo e deite 500 g de bolota, pelada e ralada. Junte uma clara de ovo e um pouco de canela. Retire do lume depois de ferver e deixe arrefecer. Com esta massa fina, molde com as mãos uns queijinhos, metendo no meio recheio de ovos-moles.

(Fonte: Sociedade agrícola do Freixo do Meio)


Doce de Bolotas

Cozem-se as bolotas e após estarem bem cozidas, retira-se a casca e a pele. Moem-se as bolotas e pesam-se. Levam-se as bolotas novamente ao lume com um pouco de água e com açúcar equivalente ao peso das bolotas. Deixa-se ferver alguns minutos até secar.
Serve-se em taças com alguns frutos secos, ou utiliza-se como compota para recheio de bolos, barrar em pão…

Azevias

Pensa-se que as azevias eram também elas originalmente recheadas com um doce de bolotas pisadas com mel ao qual era adicionado grão, chila ou feijão.

8 Respostas to “AS BOLOTAS”


  1. 1 Graça Miravent 13/11/2007 ás 12:25

    Olá
    Adorei as receitas de bolota, não sei se posso experimentar. No sábado passado apanhei duzias de bolotas em St. Margarida da Serra, Grândola, são um pouco adstringentes, mas grandes e carnudas, são bolotas de sobreiro. Como faço para achar as doces ou retirar o amrgo às minhas?
    Obrigada
    Graça

  2. 2 Via Natura 27/11/2007 ás 13:56

    Olá Graça,
    Nunca apanhei bolotas porque também não as sei distinguir, quem o fazia era o meu bisavó que era grande entendido na matéria. Segundo me lembro ele dizer as de sobreiro são mesmo só para os porcos. As comestíveis (mais doces) no sul (Alentejo) são as bolotas da azinha. No norte se não estou a dizer nenhuma idiotice julgo que são as de carvalho. Gostava de a puder ajudar mais mas também eu só as sei distinguir quando as provo.

  3. 3 João Correia 24/12/2007 ás 19:44

    Caros amigos;

    O vosso texto sobre as bolotas levou-me a querer falar convosco sobre um tema que há muito me motiva à reflexão.
    Penso que o revitalizar de receitas envolvendo alimentos como castanha, bolota, nozes, amêndoas, avelãs, figos, etc, poderá constituir uma razão adicional para estimular a sociedade de uma forma global a querer preservar a floresta autóctone, condição indispensável para a preservação da biodiversidade. As áreas ocupadas com azinhal, castanheiro,por ex., decrescem de há muitos anos. Todos os contributos para o revitalizar destas plantas são bem-vindos. Uma acção concertada tendente a divulgar práticas culinárias implicando o uso destes alimentos, através de feiras, workshops, sessões com agricultores,seria um projecto de longo prazo interessante de se realizar de forma conjunta entre diferentes entidades.

    Que acham?

    João Correia

    • 4 catarina 24/09/2009 ás 12:59

      João,

      Não so acho excelente, como tenciono fazê-lo.
      Vou por em prática as receitas que aqui deixaram, e começar ja a apanhar as bolotas de carvalho.
      Mudei-me recentemente para a serra da estrela, e teria muito gosto se quizer por em pratica alguma dessas acções.

      catarina

  4. 5 Via Natura 14/01/2008 ás 03:06

    João a sua ideia é uma excelente ideia. Se seguir com esse projecto para a frente e necessitar de ajuda pode entrar em contacto através do nosso e-mail.

  5. 6 Pedro Mendes 11/10/2008 ás 12:09

    Caríssimos,
    Elucidativa e bem cuidada a informação aqui divulgada.
    Sou chefe de cozinha num Hotel em Lagos e tenho dado voltas para encontrar quem me forneça a bolota de azinha, pois quero introduzí-la no menu de inverno ( penso ter conseguido).
    Tenho grande interesse em recuperar produtos portugueses que cairam em desuso por motivos económicos,culturais,etc. e trazê-los à mesa, reinventando receitas e apresentação, mas com base na tradição.
    Se tiverem mais ideias sobre produtos nesta situação, bem como encontrá-los, por favor partilhem comigo.

    Grande abraço

  6. 7 armando villanova 19/10/2008 ás 19:32

    hoje fui passear pela floresta apanhei alg, blotas vou experimentar a v/receita , acho o fruio duma beleza erotica extraórd, irei escreverb uma poema sobre ele/a. depois publicarei aqui. é um compromisso, palavra de honra como diria meu Avo,- um abraço p/ vos isto e o n/Portugal ´´ verdadeiro slow food.


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