Perante este cenário assombroso quais os caminhos que podemos e devemos percorrer?
Em primeiro lugar urge fazer uma reflexão séria e científica sobre a temática energética, algo que em Portugal, infelizmente, é sistematicamente relegado para segundo plano. Uma rápida análise sobre a questão leva-nos a concluir que a produção e uso de energia nos dias de hoje é concebida baseando-se na visão da oferta; a energia é vista como algo que se pode gastar indefinidamente (e quanto mais, melhor). É, assim, uma visão centralista e uniformizadora, que recusa uma aplicação local consoante a procura e necessidades dos consumidores, que tem como principal consequência o rápido esgotamento dos recursos naturais. Um exemplo desta situação é o Serviço Nacional de Saúde (SNS), aqui entendido como entidade energética: Ao invés de uma implantação local/regional, pois nem todas as zonas do país têm certamente os mesmos índices de procura, distribuiu-se, sobretudo no pós-25Abril, hospitais e centros de saúde – como se de panfletos se tratassem! – de forma “uniforme”. O resultado está à vista de todos: O SNS encontra-se hoje desgastado e mutilado, com o encerro de muitas unidades um pouco por todo o país, para desespero das populações locais.
Resumindo, a produção e utilização de energia deve ser encarada como um serviço gerador de conforto, aplicado às reais necessidades das nossas comunidades, onde cada consumidor deixa de ser visto como um mero «número», passando, desta feita, a ser parte integrante do fenómeno energético, isto com recurso a meios de que falarei mais adiante. «Power to people», é o lema a interiorizar.
Outra questão fulcral para a resolução deste conflito prende-se com o (fraco) ordenamento do nosso território. Tomemos como exemplo a região da grande Lisboa: Devido à especulação imobiliária e à incapacidade do poder local em garantir condições de vida, muitos lisboetas são “atirados” para a periferia da região mas mantendo os seus postos de trabalho bem no centro da capital. Por conseguinte, entram e saem milhares de carros todos os dias, o que corresponde, para além de um problema social, a um gravíssimo atropelo do ponto de vista energético em virtude dos milhares de litros de combustível que são gastos, com a correspondente emissão de gases poluentes. É necessário tomar novas medidas que estimulem o crescimento das economias locais e o melhoramento da rede rodoviária. Sobre este último, é absolutamente inacreditável a atitude do actual governo que prefere apostar na construção de mais auto-estradas (!) ao invés da melhoria dos transportes públicos e seu uso, ciclovias, espaços de lazer e bem-estar (Relembremos as famosas «cidades-jardim» de William Morris), legislação para habitações termicamente optimizadas, etc.
Mas o passo decisivo prende-se com a substituição das fontes energéticas comuns, onde as energias alternativas, limpas e renováveis, assumem o papel principal. Portugal é um país verdadeiramente rico nesta matéria, seja na vertente solar, eólica, hídrica ou biomassa, e temos todas as condições para sermos líderes na aplicação em larga escala desta solução. Além disso, estas podem ser facilmente colocadas nas moradias dos cidadãos – sistemas fotovoltaicos, painéis solares, aerogeradores, produção de biogás, etc. – contribuindo dessa forma para uma produção descentralizada de energia. Os custos de implementação ainda são algo elevados (por exemplo, um sistema solar fotovoltaico autónomo pode custar na ordem dos 20.000€) mas creio que a tendência é para mudar, isto à luz da Lei da oferta e da procura – a necessidade cada vez maior destas alternativas conjugado com apoios e incentivos financeiros à criação de empresas nesta área, fará certamente baixar os valores referidos.
Sobre a energia nuclear são vários os motivos que me levam a ter uma opinião negativa sobre a sua aplicação: É uma produção de energia centralizada; continua a não haver qualquer solução para o lixo radioactivo produzido, que se acumulam ao lado das centrais; o urânio está hoje, tal como o petróleo, a atingir o seu pico; exige vigilância e controlo permanentes; a tarefa de desmantelamento pode revelar-se impraticável, tal como aconteceu na vizinha Espanha onde algumas centrais tiveram de ser cobertas com cimento (!) pois os níveis de radioactividade eram excessivos; contribuirá apenas para a produção de electricidade, ou seja, não reduz a dependência do petróleo; o facto de existirem pessoas a morar ao lado destas centrais, não significa que as mesmas sejam seguras; a tentativa de atingir rendimentos de produção elevados pode levar a desastres como o de Chernobyl.
Em suma, não é uma solução segura, limpa e versátil.
Por último, cabe também a cada um de nós ter uma atitude diferente e radical sobre a forma como encaramos a ecologia. Desde o simples respeito pelo ecossistema até ao compromisso directo com esta causa, todos os caminhos são válidos para o retorno ao enraizamento e apego à nossa terra. E que nunca esqueçamos: a independência energética é o pilar base para a independência e prosperidade de qualquer Nação!
Por Diogo Canavarro

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